26 de out de 2015

A missão dos delegados da Região

Por: Daiane Lima e Fernanda Couto

É fim de semana. Quando o telefone do delegado plantonista da Polícia Civil em Bagé toca, o chamado pode vir de uma das sete cidades de cobertura do plantão. Apesar de raro, essa escala ainda pode atingir outros três municípios (São Gabriel, Vila Nova do Sul e Santa Margarida do Sul), que normalmente têm um plantão próprio, mas também pertencem a 9ª Delegacia de Polícia Regional, ou seja, totalizar 10 lugares a serem atendidos. A região tem como característica grandes extensões de terra. Os municípios que a integram - como Aceguá, Bagé, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra, Lavras do Sul e Pinheiro Machado - são cidades de pequeno e médio porte, da Campanha gaúcha, mas com a área rural bem vasta. E praticamente todos fazem fronteira com o Uruguai. Aos finais de semana e feriados, uma equipe de delegado e policiais pode estar atendendo a uma ocorrência em Lavras do Sul e ser chamado em Pinheiro Machado, cerca de 160 quilômetros distante. O trajeto ainda é brindado com 80 quilômetros de estrada de chão, que dependendo do volume de chuvas, exige tráfego lento e cuidadoso. Mesmo assim, a região se mantém com baixos índices de violência e criminalidade. A taxa de homicídios, há anos se mantém abaixo dos parâmetros indicados pela Organização das Nações Unidas (ONU), que considera aceitável 10 homicídios por ano a cada 100 mil habitantes.  

Os delegados Ao todo, cinco delegados atendem as ocorrências das 11 delegacias que existem nos sete municípios. Apenas Hulha Negra que não possui a estrutura da Polícia Civil. De dois anos para cá, o número de delegados que atuam por aqui vêm diminuindo. Dom Pedrito, Lavras do Sul e Pinheiro Machado e a 1ª Delegacia de Polícia de Bagé contam com profissionais substitutos, pois os titulares foram embora ou se aposentaram. O delegado regional, Alcindo Martins, é o responsável por montar este quebra-cabeça, no qual ele também é peça chave, já que atende a Delegacia Regional e a Delegacia de Lavras do Sul. Aos 65 anos e com quatro décadas de Polícia Civil, ele iniciou como inspetor. "Primeiro eu fiz o curso de Administração e já era inspetor. Depois segui a faculdade de Direito e, quando concluí, fiz o concurso para delegado. Já atuei em diversas regiões do estado e resolvi voltar para Bagé, pois é a minha cidade e quero encerrar a carreira aqui", adianta. A primeira especializada da região, a Delegacia Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec), é liderada por Cristiano Ritta, 31 anos de idade e cinco dedicados à polícia. Natural de Bagé, trabalhou na região metropolitana e no setor de inteligência da instituição, mas a família foi o que lhe atraiu de volta para a terra natal. Ele também atende a Delegacia de Dom Pedrito. Todos os casos de Bagé, Candiota e Hulha Negra passam pelas mãos da delegada Daniela Borba, 36 anos e na função há cinco. Isso porque ela é a titular da Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) e substituta na DP candiotense. Sempre gostou da área criminal, já foi funcionária do Ministério Público, antes de passar no concurso da Polícia Civil. Escolheu Bagé, motivada pela família e por conhecer a realidade daqui. A delegada titular da 18ª Delegacia de Polícia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Carem Nascimento, conta que não pensava, ainda durante a faculdade de Direito, em atuar no cargo que ocupa hoje. Ela é a mais nova na função entre os delegados que atuam na região, já que assumiu em 2013. A maioria dos homicídios que acontecem em Bagé são investigados pela 2ª Delegacia de Polícia, onde o delegado Luis Eduardo Benites é o titular. Ele também responde pela delegacia de Aceguá. Benites está na função há 25 anos e já atuou em várias cidades gaúchas. Voltou para a Rainha da Fronteira pela proximidade com a família e, segundo ele, deve permanecer aqui até a aposentadoria. Benites também é professor na Universidade da Região da Campanha (Urcamp), onde se formou.  

Os crimes

Para Martins, trabalhar na metade Norte ou metade Sul do Estado não tem diferença, apenas o tipo de crime que muda. "Aqui o que mais me preocupa é o abigeato, que é o mais forte, já que esta é uma zona de produção. Ele é o mais complexo, pois é permanente e sempre estamos correndo atrás, já que é muito difícil conseguir um flagrante, ainda mais que os municípios são muito longe uns dos outros", argumenta. O titular da Defrec se preocupa com os roubos. "É o crime em que a vítima está mais exposta e aqui acontece em ciclos. Ora são roubos ao transporte público, ora a lotéricas, entre outros. Outros crimes, como o abigeato, estão muito relacionados a outras regiões. O tráfico existe em todos os lugares, mas aqui não é violento. Já o roubo, é sempre potencial de risco", detalha. Na visão de Daniela, a violência doméstica é o que mais lhe causa inquietude. "Nós temos bastante registro deste tipo de crime. O tráfico também, pois ele costuma desencadear outros delitos. O abuso infantil, principalmente na zona rural, também exige a nossa atenção. No mais é tranquilo, se compararmos a outras regiões do tamanho da nossa", destaca. Na ótica da delegada titular da Deam, os crimes mais preocupantes são o homicídio e a tentativa de homicídio. "São os mais graves. Mesmo assim, temos poucos registros. O último homicídio de uma mulher, por causas passionais, aconteceu em 2011 e desde que estou aqui registramos cinco tentativas", conta. Os casos de estupro também são, para Carem, uma preocupação na região. Ela relata que o índice não é alto, mas que muitas vezes os casos não são registrados, o que dificulta a contagem. "A região tem uma cultura machista. Sei disso até por conversar com colegas que atuam em outras regiões", relata. Este tipo de mentalidade, segundo ela, não é recorrente somente entre os mais velhos. "Já atendemos casos em que a mulher é agredida e o filho concorda com o pai. Os mais jovens acabam, às vezes, aprendendo este tipo de conduta e talvez a reproduzam", relata a delegada. Benites afirma que já perdeu a conta de quantos casos de homicídio já investigou, os crimes contra a vida são os mais preocupantes. O delegado citou como o mais marcante o assassinato de um delegado regional do trabalho morto por um policial civil. "Foi muito desgastante e cansativo, porque envolvia a própria polícia. Um dos mais complicados para resolver", declarou. Todos são unânimes em dizer que a fronteira com o Uruguai, ao contrário de outras fronteiras do Brasil, não é motivo de preocupação. "Esta é uma fronteira muito calma, de gente amiga, e todos se entendem, inclusive as instituições", avalia Martins.  

Os obstáculos 

A falta de estrutura é o que mais afeta o desenvolvimento das funções, segundo Ritta. "Nós temos carência de recursos humanos e de materiais, além das dificuldades impostas pelo sistema, como os plantões que a gente tem que atender em uma região grande", analisa. Segundo ele, o fato de morar na cidade natal também tem um lado mais difícil de lidar, como a vez em que ele prendeu um ex-colega, que estava envolvido em uma ocorrência de tráfico. Por outro lado, há o obstáculo de não conseguir evitar um crime. "O que mais me choca é a pedofilia, pela forma como acontece, pela idade da vítima. E uma decepção são os trabalhos que não conseguimos fazer por causa do sistema de persecução penal", desabafa. Daniela concorda com Ritta no que tange ao sistema. "Tem o expediente, o sobreaviso e aos finais de semana, se há movimento, é desgastante. Como fazemos o que gostamos, até isso acaba se tornando prazeroso. Mas para ser delegada abri mão do sono, da tranquilidade. Desde que entrei para a Polícia Civil, meu telefone funcional nunca ficou desligado. Meus pais até ficaram apreensivos quando optei por este caminho", relembra. 

Ela também cita um caso marcante, que a deixou abalada, quando uma criança foi assassinada pela mãe. "Tem crimes que a gente acostuma por ver todos os dias, mas este tipo de fato, marca a vida da gente", declara. Parte da missão dos delegados é serem líderes de pessoas, afinal, cada um coordena sua equipe. Martins garante que não há grandes problemas em gerenciar a conduta dos policiais da região. "Além de passar no concurso, os novos policiais têm toda a vida pregressa analisada e fazem o estágio probatório durante três anos. Depois disso, qualquer desvio de conduta vai ser investigado. Mas o que mais constatamos é problema com alcoolismo, temos muitos casos, que quando percebemos, encaminhamos para a divisão de saúde da Polícia Civil", explica. 

Das dificuldades em exercer a profissão, Carem relata que lidar com violência doméstica é difícil por envolver situações delicadas "Temos que aprender a trabalhar com os casos que chegam até nós. Alguns têm uma carga emocional muito grande, como por exemplo quando há crianças envolvidas e, muitas vezes, as mulheres voltam para o agressor, pois não têm outra opção de onde morar", revela. Para Benites, a distância entre os lugares de atuação é uma das grandes dificuldades. "Tudo é distante, até mesmo dentro do município, quando vamos atender a zona rural. Há também o desgaste dos veículos e o gasto com combustível nessas situações. Qualquer ocorrência pode se tornar complexa", relata. Por atuar também em Aceguá, Benites conta que o trabalho tem uma abrangência ampla. "Acabamos investigando também inquéritos de crimes praticados no exterior por brasileiros". O delegado ainda argumenta que a falta de estrutura prejudica o andamento dos trabalhos: "Não tenho mais uma utopia de que vai tudo ficar perfeito. Temos que lidar com o que temos e fazer o melhor trabalho possível", declara.  

Os prazeres 
Para o delegado regional, o melhor de trabalhar nessa região é os colegas também serem daqui, portanto conhecem bem e tendem a ficar mais tempo. Ritta defende que a população é receptiva às ações policiais: "As pessoas são educadas o que torna o nosso trabalho relativamente tranquilo. O que mais me orgulha foi ter conseguido prender pessoas que achavam que jamais seriam presas, ligadas ao tráfico. Algumas se achavam protegidas. Também teve o caso da maior apreensão de LSD do Estado que foi feita por nós". A delegada Daniela orgulha-se de poder estar próximo das pessoas da comunidade. "Aqui eu tenho a possibilidade de ajudar as pessoas. Trabalhamos em casos delicados, mas podemos atender a uma pessoa que só precisa de uma orientação, muitas vezes, nem é um crime, mas elas nos procuram para saber o que fazer. Eu vejo que eu estou cumprindo a minha função e que a população acredita no nosso trabalho, temos credibilidade", afirma. 

Segundo ela, é satisfatória a resposta que as pessoas dão. "Praticamente todos os crimes da região são elucidados. Claro que a criminalidade cresce, por mais que a Polícia Civil se dedique, muitas vezes queremos fazer mais, mas não temos como", aponta. Cárem compartilha o mesmo sentimento de Daniela: "Aqui podemos ajudar. É tão gratificante quando, depois de um tempo, vemos que a pessoa está bem", afirma. 

O titular da 2ª DP destaca que o trabalho de delegado não permite a rotina e que é necessário conciliar a teoria e a prática. "O delegado não fica só sentado no gabinete", define. Segundo ele, a decisão imediata de determinados casos também é um ponto positivo do trabalho."Quando tem um fato tu tens que resolver na hora. O trabalho é dinâmico", declara.  

Policial X gestor 
O delegado regional é o que detém a maior parte das funções administrativas. Apesar de não haver uma preparação específica, Martins conta que para ele não foi muito difícil. "Quando cheguei a delegado regional, já estava acostumado com a rotina e não houve dificuldade. O mais difícil é para as pessoas mais novas", argumenta. As mesmas dificuldades com o sistema, já citadas por Ritta, afetam também a gestão da delegacia. 

Segundo o delegado, há muita burocracia. "Isso reflete no nosso cotidiano e atrapalha a eficiência. Na Defrec gastávamos muito com papel, impressora e manutenção. Quando mudei para digitalização, através de uma parceria, este tipo de gasto caiu pela metade. Mas partiu de nós a iniciativa. Ninguém prepara para gerenciar, eu trabalhava na iniciativa privada antes e este foi o embasamento que trouxe pra cá, da gestão por resultado, eficiência. É difícil no poder público, pois é mais engessado, não tem como recompensar um bom trabalho, por exemplo. A administração pública não tem boas ferramentas", declara. 

Sobre o trabalho como gestora, Carem conta que há um cuidado em selecionar os policiais com perfil específico para trabalhar com violência doméstica. "Aqui precisamos de uma grande quantidade de mulheres, principalmente para recolher o depoimento das testemunhas, mas também é preciso que haja homens na delegacia. Nós escolhemos pessoas que saibam e gostem de ouvir e tenham paciência. O atendimento tem que ser humanizado", defende. 

Benites destaca que não há uma fórmula para gerenciar. "Não lidamos com uma ciência exata aqui", conta. Ele relata que o delegado precisa agir como um líder e que não basta a preocupação com a vida profissional dos agentes, mas também com a pessoal. "Precisamos lidar com tudo, desde a lâmpada até o papel para impressão. O conhecimento do direito administrativo ajuda, mas muitas coisas aprendemos com o tempo", finaliza.

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